O que há alguns anos era considerado
apenas como “caduquice” ficou mais perceptível com o aumento da “vida útil” do
ser humano e trata-se de uma das doenças mais cruéis que existem. Ou seja, o
Alzheimer geralmente dá as caras a partir dos sessenta e cinco anos,
apresentando os sutis primeiros sintomas nessa idade, mas, como há trinta anos
geral começava a enfartar aos cinquenta e a morrer cedo, a doença nos poucos
velhinhos longevos não era corretamente diagnosticada e o que mais se ouvia era
“fulano está esclerosado”, como se fosse algo simples e natural.
O alemão faz parte da minha
família. Ele reside em nosso DNA. Não só ele, mas também outro primo distante, pois,
desafortunadamente, somos “chegados” a doenças degenerativas. O primeiro caso se manifestou numa tia-avó,
que apresentou sinais evidentes da doença por volta dos oitenta anos, quando se apaixonou loucamente por seu motorista cinquenta anos mais novo e dizia que iria se casar com ele - obviamente ele se aproveitou da situação – e daí em
diante inúmeras confusões até vir falecer sem reconhecer os familiares.
O segundo caso e mais triste até
o momento foi uma tia querida que começou apresentar indícios precocemente, por
volta dos cinquenta e cinco anos, na forma também de uma paixão muito louca. Os
familiares criticavam-na, faziam troça e muitas vezes eram cruéis sem se dar
conta de que aquilo já fazia parte do processo de demência. Ela via a imagem do
objeto de sua paixão em todo lugar que ia, “stalkeou” o rapaz algumas vezes, ouvia-o
ao telefone quando o aparelho nem ao menos chamava, e outras coisas insanas
nesse nível. A gente só se deu conta do
que estava acontecendo de verdade quando aquela mulher independente,
empreendedora e evangélica começou a confundir nota de dois reais com nota de
cem; esquecer como se fazia conta de somar; e sequer saber quem era a mãe de
Jesus, que dirá qualquer outro fundamento da religião na qual fez parte praticamente
toda sua vida. O senhor Alzheimer dessa vez veio casado com a dona
Esquizofrenia, o que explicava as “aparições” e conversas inexistentes ao
telefone com o ser amado. Minha querida
tia foi definhando aos poucos até parar de falar, nos olhar nos olhos, andar e
vir a falecer no fim do ano passado, aos sessenta e oito anos.
Um sinal de alerta piscou. Deu
ruim! A família Oliveira inteira faz
parte do grupo de risco e não tem pra onde correr. “Girls” pertencem ao “team
Alzheimer” e “boys” ao primo distante e estrangeiro “team Parkinson”. Alemanha
versus França. “Who wins”? No placar
dessa partida onde todos nós perdemos de alguma forma, “team Alzheimer” está na
frente com três “gols” e “team Parkinson” com dois, sendo o terceiro e mais
recente gol de placa do time alemão marcado pela minha mãe e essa bolada me
atingiu direto no peito.
Minha mãe, minha melhor amiga começou
a apresentar os primeiros indícios de estar perdendo a conectividade quando em
nossas conversas telefônicas, quase diárias, ela já não acompanhava mais, se
esquecia do que eu havia dito no dia anterior, não se lembrava mais dos fatos “and
there it is”: Alzheimer diagnosticado. Uma pequena e crescente manchinha no
cérebro. Confusões mentais cada vez maiores.
Hoje, minha melhor amiga, ainda
se encontra aqui em carne e osso, porém não mais em espírito e em razão. Os
conselhos que ela sempre tinha pra me dar não existem mais. Os sonhos que
sonhávamos juntas ela os esqueceu e doeu profundamente quando eu consegui
realizar um deles – a compra de sua casa própria – ela já não tinha mais noção
para entender o que estava acontecendo e se sentir feliz. Três anos em que ela reside na casa nova e
até hoje me pergunta de quem é aquela casa e onde que ela está. A mulher que
cuidava de toda família já não é mais capaz de fazer a própria comida, perdeu
as mãos de fada para a costura, precisa de alguém para vigiá-la no banho, não
pode mais sair ou ficar sozinha.
Quando me perguntam: “como está
sua mãe?”, eu respondo por educação, mas, para ser muito honesta, eu odeio essa pergunta! Detesto quando me
perguntam por ela. Faz com que me lembre de que ela está doente, ensandecendo e
que não vai melhorar... nunca. Recorda-me que a minha mãe foi abduzida e que
aquela pessoa que está em seu corpo eu não sei quem é, pois aquela mulher que
não curte “pets” e hoje dá bom dia para cachorro – literalmente – que sempre
foi pudica, austera e evangélica fundamentalista, vira e mexe canta Anitta sem
saber do que se trata, fala coisas constrangedoras e que ri para todo mundo de
forma escandalosa não é a minha mãe. É Alzheimer, gente! Não melhora; só piora.
Vocês já sabem a resposta para essa pergunta, então não me perguntem porque me
machuca e me lembra que a minha séria mãe não vai mais voltar. “This ship has long gone”. Eu a perdi em
vida.
Já ouvi pessoas que nunca conviveram
com a doença dizer: “Ah, mas você precisar rir com os momentos engraçados que a
doença traz”, sim, pois, eventualmente há situações que são tão absurdas que
chega a dar vontade de rir, mas, eu não acho graça. Não acho graça alguma. Não enche meu saco, Pollyanna que vê o
solzinho brilhando em tudo. Queria ver se fosse com a sua mãe se você acharia
divertido. Perder um amigo de verdade já
dói muito, imagina se esse amigo fosse também a sua mãe; o seu pai? Ela ainda está lá, mas não está mais lá por
você. Ela só sobrevive e o pior ainda
está por vir. Então, respeite “please”! É o mínimo!
Entretanto, como tudo na vida tem
um lado positivo até mesmo nas piores desgraças, essa situação me ensinou a ver
vida por uma perspectiva completamente diferente, sem falar que de forma mais
madura e realista. E, apesar de eu ter perdido uma mãe, eu ganhei um pai. Ele
que antes era presente em corpo, mas, ausente em espírito, hoje é um pai e um
marido completo. Ele cuida dela como se de uma criança e virou meu grande amigo.
A gente se apoia, dialoga, se ajuda. É com ele com quem agora me abro, busco
aconselhamento, força, orações e de quem estou podendo usufruir da experiência
de vida sem a severidade de um pai corrigindo uma adolescente, mas, com a
serenidade de um ancião de oitenta anos apoiando a filha adulta.
A minha mãe que se foi levou
consigo um pedaço do meu coração e o meu chão. À minha mãe que ainda se
encontra presente e virou meu bebê, o meu amor e a paciência que estou
aprendendo a encontrar. Ao meu novo pai, muito obrigada por renascer por nós.
Apesar de suas reclamações e caprichos e de minhas malcriações, estaremos
sempre juntos... até o fim e depois no além.
P.S.: Se aos sessenta anos eu
falar pra vocês que o Jon Bon Jovi ou algum gato do elenco dos vingadores está
apaixonado por mim, já sabem: entrei para a estatística familiar. “Go German!”



