segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Amarre o frango!


Mood do dia:  😒

Há um ano perdi meu emprego e meu rico dinheirinho, após uma carreira praticamente ininterrupta desde 1995.  Apesar de muitos amigos darem aquela força e me falarem que logo, logo eu estaria recolocada porque era boa profissional, no fundo eu sabia que não seria tão fácil assim. Passei os quatro anos e meio que durei em meu último emprego tentando mudar de empresa, o que, obviamente, não consegui, ou não estaria aqui reclamando.

Sem me alongar sobre os efeitos morais e financeiros de uma demissão - não é este o tema que quero tratar agora – uma de minhas ideias malucas de desempregada foi a de entrar no ramo da gastronomia; e como eu sou perturbada, mas nem tanto, não fui logo de cara torrando minha rescisão e abrindo um negócio sem experiência alguma; fiz o que uma pessoa sensata faria: estudar. E já que é pra estudar, vamos fazer direito e entrar em uma escola decente.

A primeira opção era ir para o Canadá e me matricular na escola francesa mais conceituada e antiga que existe, mas logo a situação econômica do país e a variação cambial cortou a rabiola da minha pipa avoada e me fez pousar em terra em firme: “sossega o rabo ai que você não está podendo”.  Cheguei a fazer o IELTS requerido pela escola, mas deixei pra lá a ideia em tempo de não torrar meu sustento todo.

Todavia, totalmente influenciada pelo MasterChef e pelos 740 mil programas culinários do GNT, não desisti. Para minha “sorte” essa mesma escola inaugurou recentemente uma filial no Rio de Janeiro e sem titubear fui lá e me matriculei num curso de técnicas com duração de um ano.  

Primeiro módulo - Pâtisserie, tudo lindo! Confeitaria é vida! Cada dia um doce fantástico, uma aula maravilhosa. Encantada! Toda trabalhada no talento, logo me destaquei como a maior nota da turma no exame final do módulo.   Ai veio o segundo módulo - Cuisine, e não demorou muito para eu começar a me perguntar what the hell am I doing here? De onde tirei essa coisa de que gosto de cozinhar? Isso nunca foi verdade!

Primeiras aulas e as perguntas que não querem calar: “quem foi o francês desocupado que inventou que tem que cortar a cenoura em tiras de um milímetro de espessura e em cubos de 2mm por 2mm?”.  “Quem em um país em desenvolvimento – pra não dizer de terceiro mundo – vai tornear batatas e jogar quase um quilo do legume fora, pra comer cinco batatinhas afrescalhadas?”. “Mas que raio de sopas são essas que todas têm o mesmo gosto de alho-poró e sustança zero?” "Que porcaria de água suja é esse tal de consommé?"  Fora o português do chef francês, de palavras inventadas, que ninguém entende coisa alguma e sua delicadeza e sutileza de um cavalo selvagem, mas isso fica para outra hora.

Até que chegou o final do módulo e o momento da tão temida prova em que seria sorteado o prato que cada um deveria fazer, dos quais: Peixe Pochê – que é um peixe cozido com molho branco, acompanhado de arroz pilaf. Carré de Porco Salteado com mousseline - vulgo purê de batatas; e Frango Assado com Batata Gratin Dauphinoise que não vem ao caso sobre o que se trata porque nem é tão gostoso assim.   Aí você pensa: “ah, poxa, assar um frango nem é tão difícil”, mas, como cozinha francesa é a arte de se complicar tudo o que é simples, não basta limpar o frango, tacar sal e pimenta e jogar inteiro no forno, igual a Chester de Natal que você só tira do saco e joga o bagulho lá. Antes de assar o frango você tem que amarrar o dito cujo, o que consiste em contornar a criatura abatida com um barbante, usando uma agulha culinária, costurando e prendendo suas partes.   Cargas d’água não me pergunte qual a utilidade prática disso porque o chef francês, que eu carinhosamente apelidei de “Gru”, não explicou. Aliás, como ele mesmo diz, ele não tem obrigação de explicar tudo... Oi?

Let’s go! Amarrei o frango lindamente em sala de aula, mas como era matéria de prova, fui treinar minhas possíveis dificuldades em casa.  Torneei cenouras e batatas, desperdício do cacete, mas OK. Até que a hora de amarrar o frango chegou.   Limpei o bonitinho todo e até aí tudo bem. Quando fui amarrá-lo, na primeira tentativa de enfiar a agulha, minha mão escorregou e voou galináceo pela minha cozinha americana indo aterrissar no meio da minha sala, em frente à televisão! Yuuuuck! Volta aqui filho da mãe! Contaminando minha casa com salmonela!

Corre, pega o frango, lava o bicho, limpa o chão, passa desinfetante, álcool; não álcool não, vai manchar o chão de madeira; costura a maldita ave ou desse jeito vai tomar pau na prova! E para minha surpresa – mas, nem tanto – Gru decidiu que excluiria um dos pratos e limitaria nossas opções a somente duas. Adivinhe qual o foi o prato excluído? Ele mesmo... Murphy me adora! E se você ainda tem alguma dúvida, o damn frango não caiu na prova... e nem a porcaria da batata torneada. Peguei o peixe com arroz e o maldito corte em cubos de 2mm por 2mm (conforme nossa apostila), que na hora da avaliação resolveram que o tamanho certo era 3mm por 3mm, e eu que fiz o corte com 5mm por 5mm medidos em régua fui reprovada porque “estava pequeno demais”... whaaaat? E como diria a Lei de Murphy: "Tudo que pode dar errado, vai dar errado", meu molho do peixe – que eu não havia treinado – talhou e eu fui parar na recuperação.

Quarenta e alguns anos, CDF sindicalizada, eu nunca fiquei em recuperação em coisa alguma e tomei bomba justo numa aula de cozinha! Como assim, produção? Gente, é só comida; não é física quântica! Ao menos, acho que consegui refazer o peixe direito e cortar os cubinhos na espessura que o bipolar que me reprovou queria... ou não, não sei. Nos deixarão sem resposta até o retorno do recesso. Enfim, que venha “Boulangerie”. Já que eu arrumei problema pra minha vida – tava tão bom minhas maratonas vespertinas na Netflix... – agora vou até o fim. Quem sabe não sai algo bom disso tudo?


P.S.: Meu pai já voltou de viagem e como ele não tinha o que reclamar em relação ao tratamento VIP dado pela companhia aérea, reclamou que o almoço que carinhosamente fiz para eles estava sem sal... Eu mereço!

sábado, 8 de dezembro de 2018

Porque reclamar é uma arte e faz bem!

Reclamar é uma arte. Não é todo mundo que sabe fazer isso com maestria.
 
Eu sou reclamona, desde sempre e recentemente me dei conta do porquê. Meu pai. Puxei a ele.  Velhinho adooooora reclamar. É seu assunto favorito.  Ele reclama do que está ruim e do que está bom porque o negócio é reclamar.

Somos pobres e até pouco tempo eu era a mais bem sucedida da família e por assim ser, sempre fiz o possível para dar aos meus filhos - mom & dad - o que eu não tive na infância e tive que ralar o cão, ouvir desaforos e engolir sapos (mentira, quase nunca, mas isso é assunto pra outro post) para fazer acontecer.   Hoje, proporcionei ao meu pai sua primeira viagem de avião, no auge de seus 79 anos.  Enquanto, há alguns anos, em sua primeira vez em um voo, minha mãe ficou emocionada, agradecendo a Deus, dizendo que não era merecedora daquela bênção, Dad fez o que? Reclamou! Reclamou que teve que pagar seis paus no cafezinho.

E assim ele é... ele reclama.   Reclama do carro de som na rua - sim ele mora no subúrbio; reclama do vizinho e do governo - básico; reclama da minha mãe - coitada, já aturou muito; reclama da SKY porque ele não sabe trocar o áudio e tem que ficar assistindo filme legendado; reclama que a FOX Sport não está transmitindo o campeonato Francês; reclama que quase não passa filme na SKY, sendo que o pacote dele tem diversos canais de filme e faz bem pouco tempo ele só tinha  a pobreza da TV aberta... Reclama, reclama, reclama e quer que eu ligue para SKY para reclamar por ele, pois claro, ele não quer se estressar; eu quem estou pagando a SKY para ele - de presente - que me estresse com a operadora, o que, obviamente, não fiz e nem vou fazer.   Enquanto isso, o aturo dizendo que é melhor migrar para Oi TV, pra depois ele reclamar também que não está bom.

E assim sendo, aqui estou eu reclamando das reclamações do meu pai.
 
Terapeutas diriam que somos pessoas insatisfeitas com a vida ou outra crap freudiana qualquer que não vai resolver nosso problema.

O cristianismo diria que somos murmuradores, o que de acordo com a Bíblia é bem verdade.

Outras religiões diriam que estamos atrasando nossa evolução - doesn't matter, não acreditamos em outras vidas.

"Pollyanas" diriam que somos ingratos porque a vida é linda.  Hell no! Life sucks most of the time!

Pois, eu digo que reclamar faz bem a nossa saúde e a nossa pele.   Ninguém acredita na idade que temos de tão bem conservados que somos.   Dad tem finas linhas de expressão e se pintasse o cabelo passaria por um cinquentão fácil, fácil.    Já eu, no auge da minha cougar age, chegam a me dar 25 anos, pois não tenho rugas, flacidez e cabelos brancos - arranco todos.
 
Mom, pessoa de personalidade fleumática, que sempre engoliu tudo na vida calada, inclusive as reclamações e chatices do meu pai, se acabou. Tem 73 anos e parece ser bem mais velha que ele - e ela era tão linda... Parecia uma estrela de Hollywood dos anos 60.

Não consigo chegar a outra conclusão que não no fato de que nossas infindas reclamações são nada mais, nada menos que nossa válvula de escape. Somos abstêmios, não fumamos, não nos drogamos e atualmente, nem sexo ta rolando, então o que fazemos? RECLAMAMOS!  Com muito bom e mau humor.

Entretanto, ninguém gosta de "reclamões". Nem eu. Às vezes fico boladaça com o meu pai, inclusive quando ele está demonstrando sua "ingratidão" em relação aos meus presentes e meu esforço de dar a eles o que eu não tive, mas ai me toco de que somos muito parecidos - mas nunca sou ingrata com presentes. Presentes são de graça e eu aprecio muito!

Esse exercício tem me feito refletir.  Tenho tentado me controlar, mas, é mais forte do que eu, damn it! Está na minha natureza. Não dá pra lutar o tempo todo contra quem eu sou e logo penso: "aceita que dói menos".  O problema é que a humanidade, apesar de podre, defeituosa e hipócrita, não aceita pessoas do nosso feitio. Reclamam de você porque você é "reclamão"... look at it!

Piora ainda um pouco quando você está desempregado. Você tem que incorporar a personagem de que você é o tempo todo uma pessoa super legal, alto astral, de bem com a vida e sorrir... sorrir muito, ou não arrumará emprego algum, não importa sua reconhecida competência. By the way, competence is overrated; a qualidade essencial para vida corporativa hoje em dia se chama "inteligência emocional" (essa também é uma pauta para outro post).    Mas, voltando aqui pra terra;  ai de você ser autêntico! 

Bom, como, infelizmente, eu não sou a Paris Hilton, pois se ela fosse passaria a maior parte do meu tempo lendo; comprando roupas lindas e besteiras inúteis; assistindo Netflix; viajando e fazendo cursos de coisas legais para ocupar o tempo, eu preciso tentar me controlar, fazer a Emily Thorne e fingir que sou boazinha all day long.

Por isso, vou reclamar aqui. De tudo e de todos, inclusive de mim mesma, pra desopilar, pois desempregada não tenho plano de saúde, não posso ficar doente e me dar a desgraça de cair num hospital público,  e muito menos ficar enrugada porque o botox está pela hora da morte.    Julguem-me.

That´s not funny. Not funny at all.

Eu gosto muito dos alemães. Eles costumam ser tão bonitos, altos, pragmáticos, ter belos olhos, ser bons homens de família, mas, existe um e...