Mood do dia: 😒
Há um ano perdi meu emprego e meu
rico dinheirinho, após uma carreira praticamente ininterrupta desde 1995. Apesar de muitos amigos darem aquela força e
me falarem que logo, logo eu estaria recolocada porque era boa profissional, no
fundo eu sabia que não seria tão fácil assim. Passei os quatro anos
e meio que durei em meu último emprego tentando mudar de empresa, o que, obviamente, não consegui, ou
não estaria aqui reclamando.
Sem me alongar sobre os efeitos
morais e financeiros de uma demissão - não é este o tema que quero tratar agora
– uma de minhas ideias malucas de desempregada foi a de entrar no ramo da
gastronomia; e como eu sou perturbada, mas nem tanto, não fui logo de cara
torrando minha rescisão e abrindo um negócio sem experiência alguma; fiz o que
uma pessoa sensata faria: estudar. E já que é pra estudar, vamos fazer direito
e entrar em uma escola decente.
A primeira opção era ir para o
Canadá e me matricular na escola francesa mais conceituada e antiga que existe,
mas logo a situação econômica do país e a variação cambial cortou a rabiola da
minha pipa avoada e me fez pousar em terra em firme: “sossega o rabo ai que
você não está podendo”. Cheguei a fazer
o IELTS requerido pela escola, mas deixei pra lá a ideia em tempo de não torrar
meu sustento todo.
Todavia, totalmente influenciada
pelo MasterChef e pelos 740 mil programas culinários do GNT, não desisti. Para
minha “sorte” essa mesma escola inaugurou recentemente uma filial no Rio de Janeiro e sem
titubear fui lá e me matriculei num curso de técnicas com duração de um
ano.
Primeiro módulo - Pâtisserie,
tudo lindo! Confeitaria é vida! Cada dia um doce fantástico, uma aula
maravilhosa. Encantada! Toda trabalhada no talento, logo me destaquei como a
maior nota da turma no exame final do módulo.
Ai veio o segundo módulo - Cuisine, e não demorou muito para eu começar a me
perguntar what the hell am I doing here? De onde tirei essa coisa de que gosto
de cozinhar? Isso nunca foi verdade!
Primeiras aulas e as perguntas que
não querem calar: “quem foi o francês desocupado que inventou que tem que cortar
a cenoura em tiras de um milímetro de espessura e em cubos de 2mm por 2mm?”. “Quem em um país em desenvolvimento – pra não
dizer de terceiro mundo – vai tornear batatas e jogar quase um quilo do legume fora,
pra comer cinco batatinhas afrescalhadas?”. “Mas que raio de sopas são essas que todas têm o mesmo
gosto de alho-poró e sustança zero?” "Que porcaria de água suja é esse tal de consommé?" Fora o português do chef francês, de
palavras inventadas, que ninguém entende coisa alguma e sua delicadeza e sutileza de um cavalo selvagem, mas isso fica para outra hora.
Até que chegou o final do módulo
e o momento da tão temida prova em que seria sorteado o prato que cada um
deveria fazer, dos quais: Peixe Pochê – que é um peixe cozido com molho branco,
acompanhado de arroz pilaf. Carré de Porco Salteado com mousseline - vulgo purê
de batatas; e Frango Assado com Batata Gratin Dauphinoise que não vem ao caso sobre o
que se trata porque nem é tão gostoso assim.
Aí você pensa: “ah, poxa, assar um frango nem é tão difícil”, mas, como
cozinha francesa é a arte de se complicar tudo o que é simples, não basta
limpar o frango, tacar sal e pimenta e jogar inteiro no forno, igual a Chester
de Natal que você só tira do saco e joga o bagulho lá. Antes de assar o frango você
tem que amarrar o dito cujo, o que consiste em contornar a criatura abatida com um
barbante, usando uma agulha culinária, costurando e prendendo suas partes. Cargas d’água não me pergunte qual a
utilidade prática disso porque o chef francês, que eu carinhosamente apelidei
de “Gru”, não explicou. Aliás, como ele mesmo diz, ele não tem obrigação de
explicar tudo... Oi?
Let’s go! Amarrei o frango
lindamente em sala de aula, mas como era matéria de prova, fui treinar minhas possíveis dificuldades em
casa. Torneei cenouras e batatas, desperdício
do cacete, mas OK. Até que a hora de amarrar o frango chegou. Limpei o bonitinho todo e até aí tudo bem. Quando
fui amarrá-lo, na primeira tentativa de enfiar a agulha, minha mão escorregou e
voou galináceo pela minha cozinha americana indo aterrissar no meio da minha
sala, em frente à televisão! Yuuuuck! Volta aqui filho da mãe! Contaminando
minha casa com salmonela!
Corre, pega o frango, lava o
bicho, limpa o chão, passa desinfetante, álcool; não álcool não, vai manchar o
chão de madeira; costura a maldita ave ou desse jeito vai tomar pau na prova! E
para minha surpresa – mas, nem tanto – Gru decidiu que excluiria um dos pratos
e limitaria nossas opções a somente duas. Adivinhe qual o foi o prato excluído? Ele mesmo... Murphy me adora! E se você
ainda tem alguma dúvida, o damn frango não caiu na prova... e nem a porcaria da
batata torneada. Peguei o peixe com arroz e o maldito corte em cubos de 2mm por
2mm (conforme nossa apostila), que na hora da avaliação resolveram que o
tamanho certo era 3mm por 3mm, e eu que fiz o corte com 5mm por 5mm medidos em
régua fui reprovada porque “estava pequeno demais”... whaaaat? E como diria a Lei de Murphy: "Tudo que pode dar errado, vai dar errado",
meu molho do peixe – que eu não havia treinado – talhou e eu fui parar na
recuperação.
Quarenta e alguns anos, CDF sindicalizada, eu nunca fiquei em recuperação em coisa alguma e tomei bomba justo numa aula de cozinha! Como assim, produção? Gente, é só comida; não é física quântica! Ao menos, acho que consegui refazer o peixe direito e cortar os cubinhos na espessura que o bipolar que me reprovou queria... ou não, não sei. Nos deixarão sem resposta até o retorno do recesso. Enfim, que venha “Boulangerie”. Já que eu arrumei problema pra minha vida – tava tão bom minhas maratonas vespertinas na Netflix... – agora vou até o fim. Quem sabe não sai algo bom disso tudo?
P.S.: Meu pai já voltou de viagem e como ele não tinha o que reclamar em relação ao tratamento VIP dado pela companhia aérea, reclamou que o almoço que carinhosamente fiz para eles estava sem sal... Eu mereço!
