segunda-feira, 18 de março de 2019

That´s not funny. Not funny at all.

Eu gosto muito dos alemães. Eles costumam ser tão bonitos, altos, pragmáticos, ter belos olhos, ser bons homens de família, mas, existe um em especial que eu não curto. Aliás, eu o odeio com todas as minhas forças. Esse alemão se chama “Alzheimer”.

O que há alguns anos era considerado apenas como “caduquice” ficou mais perceptível com o aumento da “vida útil” do ser humano e trata-se de uma das doenças mais cruéis que existem. Ou seja, o Alzheimer geralmente dá as caras a partir dos sessenta e cinco anos, apresentando os sutis primeiros sintomas nessa idade, mas, como há trinta anos geral começava a enfartar aos cinquenta e a morrer cedo, a doença nos poucos velhinhos longevos não era corretamente diagnosticada e o que mais se ouvia era “fulano está esclerosado”, como se fosse algo simples e natural.

O alemão faz parte da minha família. Ele reside em nosso DNA. Não só ele, mas também outro primo distante, pois, desafortunadamente, somos “chegados” a doenças degenerativas.  O primeiro caso se manifestou numa tia-avó, que apresentou sinais evidentes da doença por volta dos oitenta anos, quando se apaixonou loucamente por seu motorista cinquenta anos mais novo e dizia que iria se casar com ele - obviamente ele se aproveitou da situação – e daí em diante inúmeras confusões até vir falecer sem reconhecer os familiares.

O segundo caso e mais triste até o momento foi uma tia querida que começou apresentar indícios precocemente, por volta dos cinquenta e cinco anos, na forma também de uma paixão muito louca. Os familiares criticavam-na, faziam troça e muitas vezes eram cruéis sem se dar conta de que aquilo já fazia parte do processo de demência. Ela via a imagem do objeto de sua paixão em todo lugar que ia, “stalkeou” o rapaz algumas vezes, ouvia-o ao telefone quando o aparelho nem ao menos chamava, e outras coisas insanas nesse nível.  A gente só se deu conta do que estava acontecendo de verdade quando aquela mulher independente, empreendedora e evangélica começou a confundir nota de dois reais com nota de cem; esquecer como se fazia conta de somar; e sequer saber quem era a mãe de Jesus, que dirá qualquer outro fundamento da religião na qual fez parte praticamente toda sua vida. O senhor Alzheimer dessa vez veio casado com a dona Esquizofrenia, o que explicava as “aparições” e conversas inexistentes ao telefone com o ser amado.   Minha querida tia foi definhando aos poucos até parar de falar, nos olhar nos olhos, andar e vir a falecer no fim do ano passado, aos sessenta e oito anos.

Um sinal de alerta piscou. Deu ruim!  A família Oliveira inteira faz parte do grupo de risco e não tem pra onde correr. “Girls” pertencem ao “team Alzheimer” e “boys” ao primo distante e estrangeiro “team Parkinson”. Alemanha versus França. “Who wins”?  No placar dessa partida onde todos nós perdemos de alguma forma, “team Alzheimer” está na frente com três “gols” e “team Parkinson” com dois, sendo o terceiro e mais recente gol de placa do time alemão marcado pela minha mãe e essa bolada me atingiu direto no peito.

Minha mãe, minha melhor amiga começou a apresentar os primeiros indícios de estar perdendo a conectividade quando em nossas conversas telefônicas, quase diárias, ela já não acompanhava mais, se esquecia do que eu havia dito no dia anterior, não se lembrava mais dos fatos “and there it is”: Alzheimer diagnosticado. Uma pequena e crescente manchinha no cérebro. Confusões mentais cada vez maiores.

Hoje, minha melhor amiga, ainda se encontra aqui em carne e osso, porém não mais em espírito e em razão. Os conselhos que ela sempre tinha pra me dar não existem mais. Os sonhos que sonhávamos juntas ela os esqueceu e doeu profundamente quando eu consegui realizar um deles – a compra de sua casa própria – ela já não tinha mais noção para entender o que estava acontecendo e se sentir feliz.  Três anos em que ela reside na casa nova e até hoje me pergunta de quem é aquela casa e onde que ela está. A mulher que cuidava de toda família já não é mais capaz de fazer a própria comida, perdeu as mãos de fada para a costura, precisa de alguém para vigiá-la no banho, não pode mais sair ou ficar sozinha.

Quando me perguntam: “como está sua mãe?”, eu respondo por educação, mas, para ser muito honesta, eu odeio essa pergunta! Detesto quando me perguntam por ela. Faz com que me lembre de que ela está doente, ensandecendo e que não vai melhorar... nunca. Recorda-me que a minha mãe foi abduzida e que aquela pessoa que está em seu corpo eu não sei quem é, pois aquela mulher que não curte “pets” e hoje dá bom dia para cachorro – literalmente – que sempre foi pudica, austera e evangélica fundamentalista, vira e mexe canta Anitta sem saber do que se trata, fala coisas constrangedoras e que ri para todo mundo de forma escandalosa não é a minha mãe. É Alzheimer, gente! Não melhora; só piora. Vocês já sabem a resposta para essa pergunta, então não me perguntem porque me machuca e me lembra que a minha séria mãe não vai mais voltar.  “This ship has long gone”. Eu a perdi em vida.

Já ouvi pessoas que nunca conviveram com a doença dizer: “Ah, mas você precisar rir com os momentos engraçados que a doença traz”, sim, pois, eventualmente há situações que são tão absurdas que chega a dar vontade de rir, mas, eu não acho graça. Não acho graça alguma.  Não enche meu saco, Pollyanna que vê o solzinho brilhando em tudo. Queria ver se fosse com a sua mãe se você acharia divertido.  Perder um amigo de verdade já dói muito, imagina se esse amigo fosse também a sua mãe; o seu pai?   Ela ainda está lá, mas não está mais lá por você.  Ela só sobrevive e o pior ainda está por vir. Então, respeite “please”! É o mínimo!

Entretanto, como tudo na vida tem um lado positivo até mesmo nas piores desgraças, essa situação me ensinou a ver vida por uma perspectiva completamente diferente, sem falar que de forma mais madura e realista. E, apesar de eu ter perdido uma mãe, eu ganhei um pai. Ele que antes era presente em corpo, mas, ausente em espírito, hoje é um pai e um marido completo. Ele cuida dela como se de uma criança e virou meu grande amigo. A gente se apoia, dialoga, se ajuda. É com ele com quem agora me abro, busco aconselhamento, força, orações e de quem estou podendo usufruir da experiência de vida sem a severidade de um pai corrigindo uma adolescente, mas, com a serenidade de um ancião de oitenta anos apoiando a filha adulta.

A minha mãe que se foi levou consigo um pedaço do meu coração e o meu chão. À minha mãe que ainda se encontra presente e virou meu bebê, o meu amor e a paciência que estou aprendendo a encontrar. Ao meu novo pai, muito obrigada por renascer por nós. Apesar de suas reclamações e caprichos e de minhas malcriações, estaremos sempre juntos... até o fim e depois no além.



P.S.: Se aos sessenta anos eu falar pra vocês que o Jon Bon Jovi ou algum gato do elenco dos vingadores está apaixonado por mim, já sabem: entrei para a estatística familiar. “Go German!” 

segunda-feira, 11 de março de 2019

Porr@, mano!


Pode parecer bobo, mas, até os trinta e nove anos eu era virgem... virgem em falar palavrão. A boca mais limpa que água mineral de Vichy; que laboratório de pesquisa; que incubadora de prematuro. A pessoa passou os campeonatos Brasileiro e Carioca – sem contar a Libertadores – de 2007, 2008 e 2009 inteiros, dentro da Raça, vendo o Mengão ser campeão, sem falar um “porra” sequer ou mandar o Vasco pra “puta que pariu” nem uma vez.   Praticamente uma santa, virgem, pura! 

Mas, nada como um emprego tóxico, uma "Síndrome de Burnout" e uma amiga boca suja para mudar sua vida. Aguentei de 2013 a 2015 o assédio moral diário, a cobrança desnecessária e a pressão descabida sem xingar, só envelhecendo, entristecendo, adoecendo.  Até que de tanto ouvir “puta que pariu, meu” e “tomar no cu, mano” todos os dias, aprendi e foi... libertador! Thanks for that, Pri!

Desse dia em diante a pessoa que não falava nem “merda” e que quando dizia a palavra “bunda” perto da mãe era reprimida, começou um festival de “porra”, “puta que pariu”, “caralho”, “...tomar no cu” e “vai à merda” sem fim, causando estranheza nos amiguinhos que me perguntavam se eu beijava a minha mãe com aquela boca. Aaaaah não enche (pra não dizer “não fode”)! Xingar virou minha válvula de escape favorita. Mais até mesmo que a Netflix.

Entrando no “default” carioca, “porra” virou vírgula; “vai à merda” piada; “puta que pariu” ponto de exclamação; “que cú” igual a “que chato” e “caralho” quando eu realmente estou puta!  Acontece que xingar vira vício e como todo vício, difícil de se livrar. Até mesmo quando você não quer usar palavras de baixo calão ou sabe que não deve – como numa partida de videogame com o enteado de dez anos – o “merda” flui que uma beleza! O mesmo que falar “oi”, “então” e “por que”!

Longe do ambiente tóxico faz mais de um ano, me toquei que estou viciada em xingar e estou tentando me policiar para realmente ser a “lady” que meu amigo Pedro Henrrrrrrique acha que eu sou ou a pessoa educada e pudica que eu era, mas, não é fácil meus amigos. Estou no trânsito e me pego soltando um “caralho” quando vejo o coleguinha no carro da frente fazendo uma barbeiragem e logo digo “_Desculpa, Jesus. Não vou xingar mais!”, porém, rapidamente me esqueço quando outro "animal" me fecha.    Está foda! Nem água sanitária está dando jeito de limpar essa boca. Tá difícil pra car...cacete!

Cheguei ao fundo do poço quando meu pai me deu uma zuada no carnaval e eu mandei o dedo pra ele! Oi? 


Na mesma hora me toquei da “merda” que tinha feito e só faltei me ajoelhar pra pedir perdão. Surpreendentemente, ele até me recriminou de leve, mas, não me deu um esporro fenomenal. Se tivesse rolado na infância eu teria perdido o dedo ou se xingasse, os dentes, certamente, mas, até que ele foi legal comigo dessa vez. Todavia, eu não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha que senti e a mulher de quarenta e dois anos voltou a ser a pre-adolescente de onze – porra, Pri! Olha o que tu fez comigo, mano?


Sem dúvida e infelizmente o palavrão hoje faz parte do meu vocabulário, mas, essa não sou eu. Lendo esse texto me constranjo só de ver as palavras escritas por mim. Graças a Deus por me sentir assim; sinal que ainda há esperança pra mim. Imbuída do espírito de voltar a ser uma pessoa civilizada e com a boca limpa como uma cristã deve ser, estou pensando seriamente em mudar o nome desse Blog de “Putaça.com.br” para “O Mau Humor Nosso de Cada Dia”, porém, eu ando tão em paz ultimamente e tão boazinha que acho que seria mais adequado “Coisa Rica em Fofura.com.br”. É algo a se considerar...


P.S. Meu pai, sendo meu pai, começou a reclamar da casa novinha que comprei pra ele faz nem três anos e já ta com ideia de querer vender.   Alguém conhece algum remédio pra apagar fogo no rabo?

That´s not funny. Not funny at all.

Eu gosto muito dos alemães. Eles costumam ser tão bonitos, altos, pragmáticos, ter belos olhos, ser bons homens de família, mas, existe um e...